Estava tudo tão silencioso que ao fechar a porta, um barulho estrondoroso ecoou pela casa. Minhas pernas estavam moles, mal conseguia sustentar meu peso. Ao ouvir o fechar da porta, me senti muito culpada pelo que aconteceu. “Isso está errado! Parece que há uma nova Isa dentro de mim. Não posso fazer isso”.
Dei um passo a frente. Meus pés estavam formigando, achei que fosse cair. Lentamente fui levantando o olhar e avistei na beira da escada aquela figura misteriosa da porta. Eu até este momento não sabia o quê ou quem ela era.
O medo tomou conta de meu corpo. Aquela mulher deu um passo em minha direção.
__ Você é a Isabela, não é? Leandro me falou muito sobre você, até mesmo o Alexandre, a “nova aluna”.
__ Sim, sou eu mesma – Respondi entre risos para disfarçar minha surpresa – Mas todo mundo me chama de Isa.
__ Bem Isa, todo mundo me chama de Laura.
“Meu Deus, péssima, péssima piada. E o que essa mulher está fazendo? Sendo tão amável comigo! Parece até que não me viu aponto de beijar Alexandre, oras! Ela pensa que eu não sei!”.
Ri da sua piada infame. É tão bom ser, ou parecer, simpática às pessoas, naquela época eu gostava que as pessoas gostassem de mim.
__ Bem, é melhor eu descer, Leandro deve estar impaciente me esperando. Parece que fiquei uma eternidade aqui em cima.
__ Sei!
“Sei? Controle-se, Isa, controle-se. Assim que eu descer as escadas não precisarei mais aguentar toda essa ironia barata”.
Enquanto descia as escadas ficava imaginando porque Laura escondeu o que sabia.
Estava quase chegando ao encontro de Leandro e estava começando a sentir dor de cabeça. As dúvidas em meu pensamento não cessavam. “Preciso arranjar um jeito de sair daqui. Quero ir para casa urgente! Até parece ironia do destino... Até agora eu estava com o Alexandre e agora estou indo ao inferno amarrada por inúmeras correntes”.
__ Pensei que você realmente tivesse se perdido lá em cima, tudo certo agora?
__ Já estive melhor. Minha cabeça está me matando. Parece que vai explodir
__ Só um minuto, vou buscar um remédio para você.
__ Não, muito obrigada. Não é preciso. Acho que vou embora
__ Imagine, fique mais um pouco. Vamos tomar um café e assim podemos conversar – disse Laura enquanto descia as escadas.
“Outra vez essa mulher. Era só o que me faltava”.
__ Não sei não, mãe. Café com dor de cabeça parece que não vai muito bem. A não ser é claro que você queira, Isa.
__ Bem, já que vou ficar mais um pouco, então aceito o remédio que você me ofereceu.
Leandro saiu da sala correndo em direção à cozinha. Ficamos a sós novamente. Só eu e Laura.
__ Então, o que você está achando da escola? Você está gostando?
“Assunto, assunto, eu preciso encontrar um assunto até que Leandro volte”.
__ Sim, está tudo muito bom, melhor que na minha antiga escola!
__ Porque você mudou de escola?
__ Minha mãe achou melhor assim...
__ Melhor por quê?
__ Bem, eu não considero motivo suficiente para deixar uma escola, mas aconteceu... Uma professora foi afastada do cargo porque se envolveu com um aluno de 16 anos, mesmo o garoto a defendendo. Uma pena. Era minha professora preferida.
__ Professora de quê?
__ Ela era professora de Biologia. Foi um grande escândalo na época. Ela era casada e quis se separar do marido para ficar com o garoto e ele era ciumento...
__ Meu Deus! E o que aconteceu?
__ Se me lembro bem... Essa história acabou mal. O marido traído seguiu os dois e os pegou na rua. Ele estava armado e imagino que você adivinhe o final.
__ Hum... Claro! Sinceramente não consigo entender o que leva uma pessoa a fazer isso! Ele deveria estar ciente que tudo acabou! Tentar matar uma pessoa não irá resolver nada. Existe muita gente ignorante nesse mundo.
__ Que mal lhe pergunte, qual a sua profissão? Isso se você tem uma... Eu nunca ouvi o Leandro falar de você!
__ Eu trabalho com artes... Sou pintora, desenhista, artista plástica... Eu estou pensando em talvez abrir uma Galeria. Algo bem simples...
__ Que legal! Achei bem interessante... Mas para você abrir uma galeria, você não precisa de uma ajuda... Tipo ter outra pessoa no mesmo projeto?
__ Entendo sua dúvida, Isabela.
__ Isa, por favor! – Na hora me arrependi de tê-la corrigido. Nosso Bate Papo, por incrível que pareça, estava bem interessante. Eu gostei dela. Apesar de tudo, ela era uma boa pessoa.
__ Pois é, Isa, eu tenho um sócio. Ele também está bem animado com o projeto. O nome dele é Nelson.
__ Ele também pinta?
__ Sim, na verdade eu e ele estudávamos juntos quando eu ainda estudava arte. Ultimamente estou só pintando, mas não tenho feito nada além de pintar, antigamente, eu costumava fazer muitas outras coisas.
Nesse momento, Leandro voltava a estar em nosso meio. Ele trazia uma cartelinha de remédios e um copo com água. Rapidamente peguei o copo e dois comprimidos.
“O clima está perfeito. Laura é muito educada. Nunca pensei que fosse gostar tanto da esposa do homem que eu gosto”.
__ Então, Isa, vamos tomar café? Eu preparei um bolo e quero que você experimente.
__ Pensei que você fosse artista não confeiteira – olhei para Leandro e ele estava sério, depois olhei para Laura e ela estava com um sorriso amarelo. A partir daí, prometi a mim mesma que nunca mais faria piadas em minha vida.
Estávamos eu, Laura e Leandro, um olhando para a cara do outro quando o sol passou a iluminar meus olhos.
Alexandre chegou perto da mesa. Olhou cada um de nós. Enquanto olhava para mim, Laura não parou de olhar na minha direção, talvez estivesse esperado que algo acontecesse.
“Mas por quê? Porque ela insiste em fingir que não nos viu? Afinal de contas, se ela não tivesse chegado naquele momento, provavelmente teríamos nos beijado. E ela sabe disso”.
__ Acho que vou tomar uma xícara de café com vocês. Então filho, como foi no shopping? Vocês se divertiram?
A pergunta de Alexandre me estremeceu por dentro, cheguei a pensar que ele fosse dizer algo inapropriado.
__ Foi ótimo, assistimos a um filme, eu gostei bastante, mas parece que a Isa não gostou. - Todos passaram a me olhar. Fiquei muito assustada com todos aqueles pares de olhos curiosos.
__ Eu não achei muito interessante. Não havia nada que me chamasse a atenção – “Para falar a verdade, eu nem olhei para a tela do cinema. Eu só tive tempo para pensar em apenas uma coisa”.
__ Eu particularmente adoro os clássicos – Disse Laura olhando em minha direção.
Durante todo o café me senti no centro do universo, todas as conversas giravam em torno de mim. Sempre que surgia um novo assunto, minha opinião era questionada. Sentia-me deitada numa maca, enquanto médicos me examinavam de todas as formas possíveis.
__ Você, Isa, gosta de clássicos?
“Ainda nesse assunto de cinema. Na verdade é melhor que continue nessa linha respeitável, assim eu consigo suportar. Espero que não me façam nenhuma pergunta pessoal”.
__ bem, eu já assisti a alguns e gostei, contando que o filme seja bom, não me interessa o ano ou se é falado ou mudo.
__ É exatamente o que eu digo – Laura continuou – sendo bom o filme, o resto não importa. O Alexandre na verdade gosta mais de lançamentos. Bons ou Ruins.
__ Claro, eu prefiro o que é novo – Disse Alexandre enquanto me olhava de cima a baixo.
“Prefiro o que é novo?” Durante todo o café tentei engolir essa frase. Frase estranhíssima, aliás.
Leandro estava num óbvio interesse em mim, acredito que apenas carnal. Alexandre não olhava para mais nada a não ser eu, e até mesmo Laura continuava me observando sem mover a cabeça um só momento.
Quando fui embora, os três foram me levar até a porta. E mesmo eu já caminhando pra longe, pude perceber que todos eles me acompanhavam com os olhos.
Havia parado de chover.
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UUUUi... q familia mais estranha!!!,,asuhhusauhas
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